Iniciativa do Incaper em Domingos Martins transforma o bagaço de malte, subproduto das cervejarias artesanais, em fertilizante orgânico (Bokashi), reduzindo custos para o agricultor e promovendo sustentabilidade.
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O ciclo da vida, em sua forma mais poética, dita que "da terra vieste, à terra voltarás". No Espírito Santo, essa máxima bíblica ganhou um sabor diferente e uma aplicação prática na agricultura sustentável. O estado, que vivencia um "boom" na produção de cervejas artesanais, encontrou uma maneira inteligente de fechar o ciclo produtivo devolvendo ao solo o que sobra dos copos e garrafas.
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O crescimento exponencial das microcervejarias em terras capixabas trouxe, inevitavelmente, um aumento na geração de resíduos industriais, especificamente o bagaço de malte. O que antes poderia ser um problema ambiental de descarte, agora está se tornando uma solução nutritiva para o campo, graças a pesquisas desenvolvidas na região serrana do estado.
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O projeto está em pleno desenvolvimento sob a tutela do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper). O palco dessa inovação é o município de Domingos Martins, conhecido tanto pelo seu potencial turístico e cervejeiro quanto pela força de sua agricultura familiar.

Foto: Reprodução
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Na Unidade de Referência em Agroecologia (URA) do Incaper, pesquisadores estão transformando toneladas de resíduos úmidos em um recurso valioso. O foco é a utilização desse material na preparação de fertilizantes orgânicos de alta qualidade, criando uma ponte direta entre a indústria de bebidas e a lavoura.
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A iniciativa tem um objetivo duplo e estratégico: ambiental e econômico. Por um lado, garante uma destinação ecologicamente correta para o subproduto da cerveja, evitando que ele sobrecarregue aterros ou seja descartado incorretamente. Por outro, oferece ao agricultor uma alternativa para produzir com menos custos.
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Segundo especialistas do Incaper, o "segredo" do bagaço de malte reside em sua composição química. O resíduo possui altos teores de nitrogênio, um dos macronutrientes mais essenciais para o desenvolvimento das plantas, responsável direto pelo crescimento vigoroso e pela coloração verde das folhas.
Foto: Reprodução
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Além da riqueza nutricional, há a vantagem logística. O insumo está disponível em diversas regiões do país e, especificamente no Espírito Santo, a oferta é abundante devido à densidade de cervejarias. Isso torna a matéria-prima acessível e de custo relativamente baixo para o produtor rural.
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O processo de transformação acontece através da produção do "Bokashi", um termo japonês para "matéria orgânica fermentada". Na URA, o bagaço — doado por cervejarias parceiras — passa por um processo controlado de fermentação anaeróbica (sem presença de ar) para se tornar um adubo poderoso.
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Este composto é vital para sistemas agroecológicos. Ele vem sendo utilizado com sucesso na adubação de hortaliças, árvores frutíferas e outras culturas que exigem um solo vivo e biologicamente ativo, dispensando o uso de fertilizantes químicos sintéticos que podem degradar a terra a longo prazo.
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O pesquisador Jhonatan Marins, coordenador da unidade, explica a ciência por trás do processo. "Além de fornecer nitrogênio na forma de matéria orgânica, o bagaço funciona como fonte de energia para os microrganismos responsáveis pela fermentação do composto", detalha.
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Essa atividade microbiana é o coração do projeto. O bagaço de malte não atua sozinho; ele é a estrela de uma "mistura fértil" que combina outros resíduos orgânicos disponíveis na propriedade, como casca de café, casca de banana, folhas de leguminosas e biomassa vegetal triturada.

Foto: Reprodução
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A combinação desses elementos não é aleatória. Ela é calculada para garantir a estabilidade do fertilizante. "O bokashi precisa passar por um processo de acidificação. Sem isso, o material pode apodrecer e perder qualidade. O bagaço de malte ajuda justamente a garantir essa fermentação correta", destaca Marins.
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Outro ponto crucial da pesquisa é a viabilidade econômica. Tradicionalmente, compostos tipo Bokashi utilizam farelo de trigo, um insumo que pode encarecer a produção. A substituição pelo resíduo da cerveja democratiza o acesso a essa tecnologia.
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"O bagaço cumpre a mesma função do farelo de trigo, mas com custo bem menor, o que torna o sistema muito mais viável para os agricultores, especialmente os de base familiar", afirma o pesquisador, reforçando o caráter social da tecnologia desenvolvida.
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Os resultados práticos já são visíveis. Na unidade de pesquisa, o biofertilizante à base de malte vem sendo aplicado em áreas experimentais de hortaliças e, mais recentemente, mostrou resultados promissores no cultivo de milho, validando sua eficácia em diferentes cenários.
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O próximo passo do Incaper é ambicioso: estruturar uma biofábrica de baixo custo. A meta é sair da escala experimental para produzir grandes volumes de fertilizante, atendendo tanto a demanda interna da URA quanto validando o modelo para uso em áreas externas de produtores parceiros.
Para disseminar esse conhecimento, a equipe planeja a realização de um Dia de Campo em breve. O evento será voltado para produtores interessados em aprender o passo a passo da produção do fertilizante, promovendo a transferência direta de tecnologia do laboratório para a roça.
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Para quem deseja se antecipar, a unidade de pesquisa fica localizada no Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação Serrano (CPDI Serrano), na Fazenda do Estado, em Aracê, Domingos Martins (BR-262, km 94). Visitas podem ser agendadas através do e-mail do pesquisador responsável: jhonatan.goulart@incaper.es.gov.br.
Ao final, fica a lição de economia circular: se beber não dirija, mas se produzir cerveja, saiba que o seu resíduo é ouro para a agricultura capixaba. O que sobra do brinde de hoje garante o alimento de amanhã, em um ciclo onde nada se perde e tudo se transforma.
Algumas Informações: A Gazeta
📝 Síntese da Matéria
🍺 Do Copo para o Campo: O Incaper, em Domingos Martins (ES), está transformando o bagaço de malte (resíduo das cervejarias artesanais) em fertilizante orgânico, dando um destino sustentável ao subproduto.
🌱 Eficiência e Economia: O material é rico em nitrogênio e substitui insumos mais caros, como o farelo de trigo, na produção do composto bokashi. Ele serve como fonte de energia para os microrganismos e garante a fermentação correta.
♻️ Processo: O bagaço é misturado a outros resíduos (casca de café, banana, etc.) para criar um adubo estável, já testado em hortaliças e milho.
📍 Serviço: A unidade planeja criar uma biofábrica de baixo custo. Produtores interessados podem agendar visitas pelo e-mail jhonatan.goulart@incaper.es.gov.br.
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