Um encontro histórico transcendeu as pautas políticas e demonstrou a força das parcerias institucionais ao propor um plano de cooperação entre o poder público e a Diocese de Leopoldina. Realizado na tarde da quarta-feira, 10 de junho de 2026, o evento reuniu prefeitos e presidentes de Câmaras dos 34 municípios da Zona da Mata mineira que compõem o território eclesiástico.
A reunião provocou uma profunda reflexão sobre as fraturas sociais da região, destacando a capilaridade da Igreja Católica para atuar onde o Estado não alcança: uma rede de cuidado formada por 62 paróquias e mais de 600 comunidades eclesiais missionárias — presentes em áreas urbanas, rurais e distritos —, impulsionada pelo trabalho de 76 sacerdotes, religiosos, religiosas, e milhares de leigos e leigas voluntários - consideradas as forças vivas da diocese.
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O evento foi realizado em Leopoldina, sede do bispado, no Seminário Nossa Senhora Aparecida, na tarde desta quarta-feira, 10 de junho de 2026. Convidados pelo bispo diocesano, dom Edson Oriolo, prefeitos e presidentes de Câmaras discutiram um conceito que antecede a própria política: o cuidado humano.
O bispo de Leopoldina, anfitrião do evento, chamou a atenção para uma dura realidade: o Estado, sozinho, está perdendo a guerra contra a desestruturação familiar, a criminalidade e a miséria. E a Igreja, com sua capilaridade histórica, apresenta-se não como salvadora, mas como o "segundo trilho" necessário para que o trem do desenvolvimento social volte a andar.
Foto: Diocese de Leopoldina
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O diagnóstico de uma sociedade fraturada
O tom de urgência do encontro foi estabelecido pela juíza titular da Comarca de Leopoldina, Dra. Mônica Barbosa dos Santos. Com a bagagem de quem lida diariamente com as Varas Criminal e de Família, a magistrada foi uma das palestrantes e trouxe para o centro do debate as "mazelas do ser humano que ninguém resolveu".
Segundo a juíza, o Brasil opera sob uma pirâmide invertida. Gasta-se fortunas remediando os efeitos da violência e da doença, enquanto a base — a educação — é subvalorizada. "O profissional que deveria ser mais bem remunerado deveriam ser os professores. O povo que tem educação tem cuidado. E o povo que é educado pouco delinque, pouco adoece e entende a importância da fé", cravou.
Dra. Mônica alertou os prefeitos sobre o perigo do vácuo de poder. Quando a educação falha, o adolescente rebelde vira delinquente; o delinquente vira traficante; e o tráfico se estrutura como empresa. "O poder não deixa espaço. Se o poder é ocupado pelo Estado na boa-vontade diretiva, vamos bem. Mas quando o Estado enfraquece, o poder é tomado por outras forças que não serão legítimas", alertou, referindo-se ao avanço das facções criminosas.
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Esse diagnóstico jurídico encontrou um eco sociológico perfeito no discurso do anfitrião municipal, o prefeito de Leopoldina, Pedro Augusto Junqueira Ferraz. Ele foi à raiz do problema ao apontar a falência de uma instituição cultural sagrada: a "mesa mineira".
Historicamente, a mesa era o local onde as famílias comemoravam vitórias, curavam derrotas e onde a figura materna exercia sua liderança moral e educativa. "Hoje, a mesa mineira está muito enfraquecida", lamentou o prefeito. "A mãe é obrigada a sair de casa para buscar o sustento. Nas famílias mais pobres, os filhos ficam soltos; nas mais ricas, o cuidado é terceirizado. A família só se encontra à noite."
Para Pedro Augusto, embora as universidades produzam diagnósticos perfeitos sobre o Brasil, as ferramentas aplicadas têm sido inadequadas, resultando em gerações criadas sem limites. A solução apontada por ele exige foco total nos "brasileirinhos" — as crianças que herdarão o país —, o que demanda a urgência de escolas em tempo integral para preencher a lacuna deixada pela nova dinâmica de trabalho dos pais.
Foto: Diocese de Leopoldina
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A inteligência de gestão e a capilaridade da Igreja
Se o diagnóstico do Judiciário e do Executivo de Leopoldina expôs a ferida, o prefeito de Muriaé, Dr. Marcos Guarino, apresentou o curativo pragmático. Médico pediatra com 45 anos de atuação no Sistema Único de Saúde (SUS), ele discursou com a autoridade de quem conhece a pobreza de perto, sem demagogia.
Guarino quebrou paradigmas ao admitir as limitações inerentes à máquina pública. “Existe um Brasil que a prefeitura não alcança. Não por falta de vontade, mas por distância, por burocracia. O posto fecha às 17 horas, a assistente social não dá conta de visitar 300 famílias sozinha. Nesse exato espaço onde o poder público é lento, existe uma instituição que já está lá: a Igreja.”
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O prefeito de Muriaé defendeu o que chamou de "gestão inteligente": parar de competir e começar a somar. Enquanto as prefeituras esbarram na lentidão das licitações, a Igreja age rápido, abrindo salões para distribuir sopa, dar reforço escolar ou simplesmente ouvir quem precisa. "A Igreja não chega no carro oficial, chega a pé. Ela sabe quem está passando fome antes de a ficha chegar ao CRAS", ilustrou.
Afastando o temor de ferir a laicidade do Estado, Guarino foi cirúrgico: "Tem gente que tem medo de misturar, mas misturar não é confundir. O Estado é laico, as pessoas não. O povo não quer saber se foi a prefeitura ou a Igreja que entregou a cesta básica, o povo quer comer." Ele propôs que os prefeitos abram as portas para os líderes religiosos, compartilhando dados e planejamento, pois "onde o Estado tem lei e orçamento, a Igreja tem gente e presença".
Foto: Diocese de Leopoldina
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A tragédia e a resiliência de Ubá
A teoria da cooperação defendida em Leopoldina e Muriaé teve sua prova de fogo exibida em cores reais e dolorosas durante o evento. Os presentes assistiram, em absoluto silêncio, ao documentário "Entre a Lama e a Fé – A Igreja caminhando com o povo de Ubá", que registrou a enchente histórica de fevereiro de 2026.
Logo após a exibição, o prefeito de Ubá, Professor José Damato, tomou a palavra visivelmente emocionado. Ele relembrou os dias de terror quando o rio atingiu 11 metros na parte baixa da cidade. "Perdemos indústrias, perdemos comércios, mas o principal: perdemos muitas vidas. Famílias ficaram destruídas", lamentou.
Contudo, o relato de Damato transformou-se em um testemunho vivo do poder da aliança institucional. Foi a união rápida dos prefeitos da região, somada à mobilização imediata dos padres e voluntários da Diocese de Leopoldina, que impediu um colapso ainda maior. "Nossa população não perdeu a fé nem a esperança. Através dessa união, Ubá está se reerguendo e voltará a ser pujante", agradeceu o prefeito, materializando o conceito de cuidado debatido durante toda a tarde.
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Os dois trilhos da Civilização do Amor
Coube ao idealizador do encontro, dom Edson Oriolo, a difícil tarefa de sintetizar uma tarde de reflexões tão importantes. O bispo diocesano lembrou que a região sudeste de Minas Gerais não nasceu de interesses puramente econômicos ou extrativistas, mas brotou da semente da fé. "Antes de muitos serviços públicos, esse lugar era lugar de acolhimento", recordou.
Dom Edson alertou para os perigos da era digital, onde a inteligência artificial e as bad news (más notícias) destroem em segundos a dignidade que as famílias levam anos para construir no lar. O antídoto, segundo ele, é o Evangelho, que se traduz em respeito, sensibilidade e amor ao próximo.
Utilizando uma imagem que ficaria gravada na mente dos gestores, o bispo definiu a relação entre o clero e os políticos: "A Igreja não pode fazer pelo município muitas coisas, mas tem muitas coisas que o município não faz e a Igreja pode fazer. É como a linha do trem: para o trem andar na bitola, tem que ter os dois trilhos. São buscas distintas, mas estamos todo mundo junto querendo fazer essa história de Deus nesta região."
Foto: Diocese de Leopoldina
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Cônego Paulo Roberto apresenta o impacto social e a capilaridade da Diocese de Leopoldina aos prefeitos
O cônego Paulo Roberto Gomes, vigário forâneo da Forania Nossa Senhora das Graças e pároco da Paróquia São João Batista, em Visconde do Rio Branco, detalhou a presença da Igreja Católica nos 34 municípios da região, destacando a vasta rede de escolas, lares de idosos, projetos de recuperação e pastorais sociais que atuam onde o Estado muitas vezes não chega.
Durante o encontro, os presentes tiveram a oportunidade de visualizar, em números e ações concretas, o verdadeiro tamanho da rede de proteção social mantida pela Diocese de Leopoldina
Utilizando slides para ilustrar a dimensão do trabalho diocesano, o sacerdote fez uma ponte clara entre a missão espiritual da Igreja — a evangelização — e seus frutos práticos na transformação da sociedade e na promoção da dignidade humana.
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A missão de evangelizar e libertar
O Cônego iniciou sua fala lembrando que a essência da Igreja é o anúncio do Evangelho, que traz consigo não apenas uma promessa de salvação, mas um impacto imediato na vida terrena. Segundo ele, a fé bem vivida oferece às pessoas liberdade, sentido para a vida, consolo nas dificuldades e um novo olhar de esperança.
"A liberdade no sentido bíblico é sermos cada vez mais capacitados para amar e caminhar neste mundo de uma forma mais leve. A fé nos leva ao reconhecimento da dignidade humana. Cada cristão tem um compromisso com o bem comum e com o cuidado da nossa casa comum, o nosso planeta", destacou o sacerdote.
Foto: Diocese de Leopoldina
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A impressionante capilaridade da Diocese de Leopoldina
Para realizar essa missão, a estrutura da Diocese de Leopoldina impressiona por sua abrangência. O Cônego Paulo Roberto detalhou que a Igreja está presente não apenas nos centros urbanos dos 34 municípios de seu território, mas possui uma penetração massiva nas zonas rurais e distritos.
Atualmente, a Diocese de Leopoldina conta com 62 paróquias e o trabalho incansável de 79 padres. Para ilustrar essa capilaridade, sacerdote citou o exemplo de Miradouro (MG), que além da Igreja matriz e de três comunidades urbanas, atende a 33 comunidades rurais.
Foto: Diocese de Leopoldina
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Uma rede de educação, saúde e acolhimento
Além da presença sacramental, a Diocese de Leopoldina atua como um braço forte de assistência social e educacional na região. O Cônego listou as diversas frentes de trabalho mantidas ou apoiadas pela Igreja:
- Educação: Quatro grandes colégios católicos (em Muriaé, Cataguases, Ubá e Além Paraíba) e uma faculdade católica em Muriaé.
- Acolhimento e Saúde: Lares de idosos administrados pela Igreja ou por Vicentinos em cidades como Visconde do Rio Branco, Ubá, Miradouro e Muriaé; além de obras de recuperação de dependentes químicos.
- Comunicação: Duas emissoras de rádio (Rádio Catedral em Muriaé e uma rádio comunitária em Visconde do Rio Branco), além de forte presença nas redes sociais e programas em emissoras seculares.
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O exército silencioso das Pastorais
O ponto alto da apresentação foi o reconhecimento do "exército silencioso" de voluntários que formam as pastorais sociais. O Cônego destacou o trabalho da Pastoral da Criança (premiada por combater a desnutrição infantil), da Pastoral da Pessoa Idosa (que combate a solidão com visitas semanais), da Pastoral da Saúde (presente em hospitais e domicílios) e a atuação histórica dos Vicentinos no amparo aos mais empobrecidos.
Ele também lembrou a força de mobilização da Igreja em momentos de crise, citando as campanhas solidárias para as vítimas das enchentes em Ubá e o apoio contínuo a instituições como a Casa da Caridade, em Leopoldina, e o Hospital do Câncer, em Muriaé.
Foto: Diocese de Leopoldina
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O convite à parceria
Encerrando sua exposição, o Cônego Paulo Roberto Gomes deixou uma mensagem clara aos prefeitos: a Igreja e o Estado possuem métodos e missões diferentes, mas compartilham o mesmo "rebanho" e o mesmo objetivo de cuidar do povo.
"A nossa Igreja é uma força viva em suas paróquias, comunidades missionárias e diversas pastorais. Ainda que o método e a missão sejam diferentes do poder público, sem dúvida nenhuma, nós podemos fazer parcerias. É essa a ideia desta tarde: falar do cuidado e mostrar um pouquinho do que a nossa Igreja realiza, para que possamos caminhar mais juntos", concluiu o sacerdote.
Informações: Diocese de Leopoldina
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📝 Síntese da Matéria
🤝 Encontro Histórico: Realizado no Seminário Nossa Senhora Aparecida, em Leopoldina, o encontro "Aliança pelo cuidado" reuniu o bispo diocesano, dom Edson Oriolo, junto a prefeitos e presidentes de Câmaras dos 34 municípios da Zona da Mata mineira para propor uma parceria estratégica entre o poder público e a Igreja Católica.
⚠️ Diagnóstico das Fraturas Sociais: Lideranças do Judiciário e do Executivo expuseram as principais mazelas da região. A juíza Dra. Mônica Barbosa alertou para o risco de facções criminosas ocuparem o vácuo deixado pela falta de investimentos na base da educação. Já o prefeito de Leopoldina, Pedro Augusto, apontou o enfraquecimento da estrutura familiar tradicional e defendeu a urgência de escolas em tempo integral.
💡 Gestão Inteligente e Complementar: O prefeito de Muriaé, Dr. Marcos Guarino, defendeu que a máquina pública possui limitações burocráticas e de horários que a Igreja não tem. Para os gestores, a Igreja funciona como um "segundo trilho" do desenvolvimento social, conseguindo agir com rapidez e proximidade nas periferias e distritos rurais.
🌊 Prova de Fogo em Ubá: O prefeito de Ubá, Professor José Damato, relembrou a enchente histórica de fevereiro de 2026, destacando que foi justamente a união rápida entre as prefeituras e a rede de voluntários da diocese que evitou um colapso humanitário na cidade, servindo de exemplo prático para a aliança.
⛪ A Gigante Rede da Diocese: O cônego Paulo Roberto Gomes detalhou a infraestrutura da Diocese de Leopoldina, que conta com 62 paróquias, 79 padres e centenas de comunidades. A instituição mantém colégios, faculdade, lares de idosos, centros de recuperação e emissoras de rádio, além de um "exército silencioso" através das pastorais (da Criança, do Idoso, da Saúde e Vicentinos) que prestam assistência social contínua.
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