Um homem foi resgatado de um cativeiro mantido dentro da própria casa pelo pai e pela madrasta, em Waterbury, no estado de Connecticut, nos Estados Unidos.
Segundo a polícia local, ele vivia trancado desde os 12 anos em um quarto de menos de três metros quadrados.
Para conseguir ajuda, o próprio homem provocou um incêndio no imóvel no último dia 17 de fevereiro.
A história chocante veio à tona durante seu resgate pelos bombeiros.
De acordo com os socorristas, o homem estava caído no chão da cozinha e era tão leve que parecia não pesar nada.
Durante o trajeto até o hospital, os paramédicos comentaram sobre o forte cheiro vindo do paciente, que, imediatamente, explicou: fazia mais de um ano desde que havia tomado banho pela última vez.
Durante o atendimento, ele revelou seu nome e idade e contou que passara a maior parte da vida em cativeiro, mantido preso pelo pai, Kregg Sullivan, e pela madrasta, Kimberly Sullivan.
Ele relatou que ficava trancado em seu quarto por cerca de 23 horas por dia, sem acesso a cuidados médicos, com higiene precária e alimentação extremamente limitada.
Frequentemente, recebia apenas um sanduíche como refeição.
Seus dentes estavam tão deteriorados que quebravam durante a mastigação.
Com 1,75 m de altura, ele pesava apenas 31 quilos no momento do resgate.
O homem contou ainda que foi ele quem ateou fogo na casa como uma tentativa de escapar: utilizou um isqueiro esquecido em um velho casaco dado por sua madrasta.
Seu raciocínio era claro — se não morresse no incêndio, talvez finalmente fosse libertado.
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Foto: Reprodução/Internet
A investigação policial revelou que o quarto onde ele era mantido media apenas 2,4 m por 2,7 m.
A vítima não via o mundo exterior desde os 12 anos, quando cursava a quarta série do ensino fundamental.
Apesar do isolamento, ele contou que chegou a receber materiais escolares por um curto período após ser retirado da escola, mas a educação formal logo foi interrompida.
Ele acabou se educando sozinho, relendo poucos livros e consultando um dicionário para aprender novas palavras.
Sinais ignorados e falhas do sistema
A história já havia causado preocupação na comunidade anos antes.
Professores, colegas e vizinhos relataram à polícia e ao Departamento de Crianças e Famílias (DCF) de Connecticut sinais claros de negligência e maus-tratos, como o fato de o garoto estar sempre faminto, malvestido e até comer do lixo ou furtar comida de outros alunos.
Contudo, registros mostram que as autoridades consideraram, à época, que ele estava "bem".
O próprio pai chegou a chamar a polícia em 2005 para reclamar de pessoas que verificavam constantemente o bem-estar do filho.
No mesmo ano, ele foi oficialmente retirado da escola com a justificativa de ensino domiciliar.
Relatos indicam que, por um período, ele podia sair do quarto por uma hora ao dia para fazer tarefas domésticas.
Raramente era autorizado a sair ao ar livre, e somente para levar o cachorro da família ao quintal por cerca de um minuto. Em ocasiões em que a madrasta estava ausente, o pai permitia que ele saísse para assistir televisão juntos.
Após a morte do pai, em janeiro de 2024, seu confinamento tornou-se quase absoluto.
Ainda em 2005, quando tinha 12 ou 13 anos, ele tentou fugir, quebrando um pedaço da porta de seu quarto.
No entanto, ao invés de escapar, desceu até a cozinha em busca de comida. Descoberto, o quarto passou a ser reforçado com madeira compensada, e ameaças de fome e violência impediram novas tentativas.
Ele também revelou que, ao longo dos anos, era forçado a defecar em jornais e urinar pela janela do segundo andar. Não teve acesso a médicos ou dentistas por duas décadas. A última visita registrada da polícia ao endereço havia ocorrido em abril de 2005.
Processo judicial e desdobramentos
Kimberly Sullivan, madrasta da vítima, foi indiciada no mês passado pelo Tribunal Superior de Waterbury.
Ela responde por sequestro, agressão, crueldade, restrição ilegal e negligência criminosa.
Se condenada por todas as acusações, poderá passar o resto da vida presa.
A acusada se declarou inocente. Seu advogado, Ioannis Kaloidis, afirma que a responsabilidade seria exclusivamente do pai da vítima, Kregg Sullivan, já falecido.
Kaloidis argumenta que Kimberly não era a responsável legal pela criança e apenas seguia as decisões do pai.
Além do enteado, Kimberly Sullivan tinha duas filhas com Kregg — Alissa, hoje com 29 anos, e Jamie, de 27 — que, segundo relatos, tinham liberdade para entrar e sair de casa.
Nenhuma delas foi indiciada, e as autoridades ainda não esclareceram qual era o nível de conhecimento das duas sobre a situação do meio-irmão.
A identidade do homem não foi divulgada oficialmente, e ele permanece sob proteção legal.
Um tutor foi nomeado pelo tribunal para cuidar de seus interesses enquanto ele se recupera em um centro médico. Segundo o jornal The New York Times, tanto o prefeito de Waterbury quanto o promotor estadual foram procurados para comentar o caso, mas até o momento não houve resposta.
O ex-diretor da Escola Primária Barnard, Tom Pannone, afirmou que ainda se lembra da inquietação que sentia com o comportamento do aluno. “Você sabia que algo estava errado”, disse. Pannone relatou que chegou a encontrar o menino bebendo água de um mictório da escola antes do início das aulas. Ele fez várias denúncias ao DCF, mas nunca obteve retorno eficaz.
Agora, depois de duas décadas de confinamento e sofrimento silencioso, o homem está finalmente livre.
Fonte: O GLOBO.
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