Tidos como alternativa reparadora para vários aspectos de uma vida saudável e equilibrada, os suplementos se tornaram alvo de desconfiança da classe médica após o aumento de casos sinalizando os seus efeitos adversos. Entre os muitos produtos observados, um deles chama a atenção de especialistas: o extrato de chá verde.
Considerada uma das bebidas mais populares do mundo, sobretudo por conta das suas propriedades antioxidantes capazes de prevenir muitas doenças, o extrato derivado da planta contém uma quantidade muito maior de catequinas e também cafeína, em comparação com o saquinho de chá normal.

O que isso quer dizer?
Se de um lado as catequinas nada mais é que produtos químicos naturais à base de plantas, a cafeína, quando acumulada no fígado, pode ser perigosa.
Os eventuais males proporcionados pelo extrato estão publicados no The Journal of Dietary Supplements, que concluiu que o uso prolongado de extrato de chá verde em altas doses pode causar danos ao fígado.
Como foi feito o estudo?
Para chegar aos resultados divulgados, o estudo escolheu pessoas com certas variações genéticas propensas a mostrar sinais de estresse hepático após um ano ingerindo o extrato.
Os participantes foram submetidos à ingestão de 843 miligramas do antioxidante predominante no chá verde, uma catequina chamada epigalocatequina galato (EGCG), diariamente.

A análise revelou que os primeiros sinais de dano hepático eram mais comuns em mulheres com uma variação no genótipo catecol-O-metiltransferase (COMT) e fortemente previstos por uma variação no genótipo uridina 5′-difosfo-glucuronosiltransferase 1A4 (UGT1A4).
Já os participantes com o genótipo UGT1A4 de alto risco viram a enzima que indica o estresse hepático subir quase 80% após nove meses de consumo do suplemento de chá verde. “Ainda estamos muito longe de prever quem pode tomar com segurança o extrato de chá verde em altas doses”, explicou um dos autores.
O estudo mostra que, embora a toxicidade hepática esteja ligada a altas doses de extrato de chá verde, doses baixas e beber chá verde não parecem representar os mesmos riscos.
Consumo de chás no Brasil cresce acima da média mundial

O consumo no país avançou 25% entre 2013 e 2020, quase o dobro da média mundial; especialista em chá fala sobre a importância da bebida para a saúde e bem-estar
Os brasileiros têm investido no consumo de chás, em detrimento de refrigerantes. O movimento, que faz parte de uma busca por alternativas mais saudáveis, é demonstrado por dados de um balanço realizado pela Euromonitor International: segundo a análise, o consumo de chá no Brasil cresceu 25% entre 2013 e 2020, quase o dobro da média mundial, de 13%.

O consumo regular de bebidas gaseificadas no país, por sua vez, apresentou queda de 53% entre 2007 e 2018. Indicativos da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que, entre 2009 e 2018, o consumo de refrigerantes caiu em todas as classes de renda.
Gislainne Couto, especialista em chá, CEO e founder da Chanoyu Collection - e-commerce que atua com a venda de chás, blends, shots e utensílios - afirma que o aumento no consumo de chás tem um impacto positivo no país.
"A cultura do chá, incutindo a ideia de pureza e harmonia, surgiu no Oriente e se expandiu pela Europa até chegar à América. Com a globalização interconectando culturas, isso foi acelerado".
Além disso, o chá - que já foi usado para tratamentos médicos - passou a fazer parte de um entretenimento refinado, conquistando profissionais de saúde em todo o mundo e passando a fazer parte da rotina de pessoas que buscam a famosa "health life", explica.
"O Brasil tem acompanhado esse movimento global, em que o foco é a saúde, e o chá, como uma bebida com inúmeros nutrientes e que proporciona uma vida saudável, com bem-estar e autocuidado, não poderia ficar de fora".
Gislainne Couto complementa que o autocuidado vem sendo recomendado por profissionais de saúde e incorporado no dia a dia do brasileiro. "É o chá fazendo parte do processo de mudança do brasileiro que busca hábitos mais saudáveis e almeja qualidade de vida".
De fato, uma pesquisa realizada pela WW, em parceria com a Kantar revelou que a maioria dos brasileiros pretende investir em vida saudável e bem-estar em 2022. Segundo o estudo, que entrevistou 14.506 pessoas, entre 18 e 69 anos, em 15 países, a busca por um estilo de vida mais saudável está entre as principais metas para este ano para 91% dos cidadãos. Em outros países, este percentual é de 78%.
A especialista em chá observa que, quando o assunto é saúde, as pessoas não devem ficar limitadas apenas à saúde física. "No momento pós-pandemia, a preocupação com a saúde mental foi destaque mundial, trazendo mudanças no perfil social e um despertar para outras prioridades que haviam sido adormecidas com a intensidade de trabalho e obrigações".
Com efeito, um trabalho desenvolvido por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) com 425 pacientes, que superaram os estágios moderados e graves da infecção por Covid-19, descobriu que uma grande parcela dos sobreviventes desenvolveu déficits cognitivos e transtornos psiquiátricos.
A análise detectou a prevalência de distúrbios como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático após a recuperação.
A volta das rodas de chá

Para concluir, a CEO e founder da Chanoyu Collection afirma que, para além da questão dos benefícios à saúde, há uma questão sociocultural também envolvida nas chamadas "rodas de chá'', que têm se tornado tendência. Isso porque, em meio a uma enxurrada de notícias trágicas, a necessidade de um momento "off" para descanso e reflexão veio à tona.
"Essa necessidade [de um momento de pausa] já era valorizada na cultura oriental, com o momento do chá. A cerimônia conhecida como Chanoyu, por exemplo, é uma das principais tradições japonesas.
O momento pode ser individual, apenas para apreciar a beleza do simples ou social, para reunir amigos e abstrair os problemas do dia", complementa.
Fonte: Catraca Livre / Terra
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