Dizem que falar a verdade para o paciente com a doença grave pode matá-lo antes da hora. Essa é uma das maiores mentiras que ouço, e ouço quase sempre.
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Enfrento dilemas frequentes diante de familiares que me imploram pra não falar a verdade da doença dos meus pacientes, pois acreditam cegamente que a verdade fará com que fiquem deprimidos e morram antes da hora.
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Comportam-se como crianças que não querem abrir o armário com medo do monstro imaginário, sem se dar conta de que a casa está caindo. E o armário vai ruir com a casa.
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O que mata é a doença, e não a verdade sobre a doença. Claro que haverá um momento de tristeza ao saber-se doente, gravemente doente. Mas essa tristeza é a única ponte até a vida que pode ser vivida verdadeiramente, sem ilusões ou falsas promessas cura.
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O que mata a esperança não saber-se mortal, mas sim, perceber-se abandonado. A palavra que mata é a palavra mal utilizada. Um dos maiores desafios que enfrento no dia a dia é convencer a família de que a pessoa doente tem o direito de conhecer a sua condição de saúde.
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(…) Os pacientes que têm um bom entendimento de seu prognóstico tendem a tomar decisões médicas diferentes daqueles que não têm esse conhecimento. O medo de discutir o prognóstico, por ele, supostamente, provocar sentidos negativos, não é o motivo adequado para evitar discussões de notícias ruins.
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Há evidência crescentes de que a preparação inadequada para a morte leva a maus resultados de luto familiar, inclusive depressão, sentimento de arrependimento e tristeza complicada.
Quanto menor a expectativa de vida, maior a capacidade de saber a verdade sobre o seu tempo. Lidemos com isso!
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Quando pergunto em uma aula quem gostaria de saber a verdade sobre uma doença grave, a maioria levanta a mão dizendo que sim. Então já aviso: conversem com seus filhos, seus amigos, sua família, sobre esse desejo.
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Porque, na hora para migrarmos para a condição de doentes, nossos filhos, nossos amigos, nossos pais e quase todos à nossa volta nos considerarão incapazes de viver o que precisamos viver.
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Todos esses que nos amam que pensam poder nos proteger do sofrimento forçarão os médicos a compartilharem desse silêncio. E, mesmo em grande sofrimento, todos nos dirão que não temos nada, que a nossa saúde é ótima e que nada do que sentimos de errado em nosso corpo é grave.
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Mas o corpo não mente. O corpo nos diz, às vezes sussurrando, às vezes gritando: “Tem alguma coisa errada e muito ruim acontecendo”. Então pensaremos: “Como é possível que eu não tenha nada? Sinto uma dor horrível, estou emagrecendo, é cada vez mais difícil ser eu mesmo…Como é que eu não tenho nada?”.
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Quando estamos em um momento assim e as pessoas ao nosso lado não foram preparadas para estarem ali, arma-se uma grande encrenca. As famílias pensam que poupam os seus amados quando mentem, sem saber que os seus amados também mentem para poupá-los.
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Na minha rotina, os pacientes conversam comigo sobre a sua finitude de maneira aberta e clara. Falamos sobre pontos muito tensos da trajetória da doença, falamos até dos desejos sobre o funeral. Mas quando esses mesmos pacientes falam com suas famílias, especialmente com a parte da família menos preparada para sua morte, eles fantasiam tudo.
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Falam dos planos de viagens, dos jantares, das festas que virão nos próximos anos. Parecem negar a realidade da doença, mas, na verdade, negam a possibilidade de conversar sobre isso, pois duvidam que seus familiares sejam capazes de tolerar o assunto.
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Quando dou ao paciente a chance de saber sobre a gravidade de sua condição, a verdade dá à pessoa oportunidade de aproveitar o tempo que lhe resta de maneira consciente, assumindo o protagonismo de sua vida, de sua história.
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Ao poupar alguém da verdade, não estamos necessariamente fazendo o bem àquela pessoa.
Não podemos poupá-la da própria morte. Não podemos salvá-la daqueles momentos difíceis em que será preciso estar em si mesma.
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Quando, na proximidade da morte, poupamos um ser humano da consciência de suas urgências, da importância do tempo de estar vivo antes de morrer, não conseguimos o processo de morrer. Conseguimos privá-lo de viver.
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Enxerto do livro “A morte é um dia que vale a pena viver” (Páginas 106 a 109) de autoria de Ana Claudia Quintana Arantes. Ana Cláudia é sócia-fundadora e vice-presidente da Associação Casa do Cuidar, Prática e Ensino em Cuidados Paliativos.
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Veja também: como aceitar e lidar com a finitude da vida?
O diagnóstico de uma doença incurável tende a trazer muita angústia para o portador do problema de saúde e sua família. Espaços especializados em cuidados paliativos proporcionam o suporte emocional necessário nesse momento difícil.
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Além de ser importante um acompanhamento humanizado com a equipe de psicologia — englobando atividades lúdicas, artísticas e sociais — precisa-se também uma preocupação com a vida espiritual do paciente, quando este tem alguma vivência devocional que pode ajudá-lo a reunir forças diante de um momento difícil.
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