Estelionatários se aproveitam da carência e da solidão de mulheres idosas para aplicar fraudes emocionais com promessas de romance, usando perfis falsos de influenciadores e deixando um rastro de dor, vergonha e prejuízo financeiro.
Em tempos de conexões rápidas e relacionamentos virtuais, uma nova modalidade de golpe tem preocupado famílias em todo o Brasil: o golpe do amor contra mulheres idosas. Mais do que um crime financeiro, trata-se de uma ferida emocional que se abre justamente onde deveria haver cuidado: no afeto.
Nos últimos meses, diversos vídeos viralizaram nas redes sociais mostrando netos e filhos desesperados ao descobrirem que suas avós estavam sendo enganadas por supostos “namorados virtuais”. O padrão se repete: homens sedutores, muitas vezes com aparência respeitável, prometem amor eterno — e, pouco depois, começam a pedir dinheiro.
A armadilha começa com mensagens carinhosas, áudios com voz suave e vídeos românticos enviados com frequência. Os criminosos criam perfis falsos usando imagens de influenciadores reais, como os cantores José Fernandes e Zinho Claudino, que também foram vítimas, tendo suas identidades usadas indevidamente.
As vítimas, na maioria das vezes, são mulheres idosas, viúvas ou solitárias, que têm pouco contato diário com familiares e buscam companhia em redes sociais. Quando recebem atenção e palavras de carinho, sentem-se vistas — muitas pela primeira vez em anos.
A ilusão de romance é cuidadosamente construída. Os estelionatários se dizem apaixonados, fazem planos de casamento, chamam as vítimas de “meu amor”, “minha vida”, e se apresentam como homens religiosos, trabalhadores e confiáveis.
Aos poucos, os pedidos surgem. Primeiro é uma ajuda com um “problema urgente”, depois uma promessa de “visita” que só pode acontecer com o envio de uma quantia em dinheiro. Muitas fazem PIX de madrugada, escondido da família, acreditando que estão salvando o amor de suas vidas.
Os golpistas sabem exatamente o que dizer. Conhecem o vocabulário do carinho, falam de Deus, do destino, da “última chance de ser feliz”. Isso desarma qualquer defesa, especialmente em quem tem o coração fragilizado pela solidão.
Quando a família percebe, muitas vezes já é tarde. As vítimas negam, se irritam com os filhos ou netos, escondem os celulares e resistem à ideia de que estão sendo enganadas. Elas preferem acreditar na mentira do amor do que encarar novamente o vazio da solidão.
O caso do cantor José Fernandes exemplifica a gravidade da situação. Ele precisou registrar um boletim de ocorrência após descobrir que sua imagem estava sendo usada por criminosos. “Nunca pedi nada a ninguém. Estão usando minha imagem pra aplicar golpe. Por favor, denunciem!”, declarou.
Esses crimes não afetam apenas o bolso das vítimas. Deixam marcas emocionais profundas: vergonha, culpa, medo e depressão. Muitas não denunciam por receio de julgamento ou por não quererem assumir que foram enganadas.
Especialistas apontam que o golpe do amor é apenas o sintoma de um problema social mais amplo: o abandono emocional das pessoas idosas. O afeto que falta no dia a dia abre espaço para que estranhos ocupem esse lugar com palavras falsas e intenções criminosas.
A tecnologia, apesar de aproximar, também facilita esse tipo de crime. Com poucos cliques, golpistas conseguem acesso a fotos, vídeos e dados pessoais de figuras públicas, criando perfis convincentes e difíceis de detectar.
A educação digital para idosos ainda é muito limitada. Poucas sabem identificar um perfil falso, reconhecer sinais de golpe ou até mesmo proteger suas informações básicas online.
Combater esse tipo de crime exige mais do que polícia. É preciso empatia, escuta ativa e presença. Famílias precisam conversar com suas idosas, incluir, cuidar e ensinar. A prevenção começa com afeto verdadeiro.
Para muitas vítimas, o que doeu mais não foi a perda de dinheiro, mas a quebra da fantasia de que estavam sendo amadas. “Eu achei que alguém estava finalmente olhando pra mim”, relatou uma senhora de 71 anos, após cair no golpe.
Campanhas de conscientização, tanto nos meios de comunicação quanto em centros de saúde, igrejas e redes sociais, são urgentes. Informar salva. E falar sobre isso sem julgamento é o primeiro passo para combater essa forma moderna de violência.
As autoridades também precisam agir com rigor. Sites e aplicativos devem facilitar denúncias, e os crimes virtuais precisam ser levados tão a sério quanto os físicos — porque o impacto é igualmente devastador.
Amar, na velhice, deveria ser um direito. O problema é que, em um mundo onde a atenção virou moeda e o afeto é escasso, há quem transforme a esperança de amor em ferramenta de roubo e destruição.
Denunciar, acolher e proteger são os verbos que precisamos conjugar com urgência. Porque por trás de cada “vovó apaixonada por um cantor sertanejo do WhatsApp”, há uma mulher ferida, esperando ser vista — de verdade.
Algumas Informações: mundonarrativobrasil (Instagram)
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