Em setembro de 1956, um dia depois de a Casa de Detenção ser inaugurada, Lupércio Ferreira de Lima foi colocado numa cela do pavilhão 4. Quase 42 anos mais tarde, cumpridas sucessivas penas no local, sempre por porte de maconha, ele mais uma vez foi libertado. Instalou-se num hotelzinho do centro de São Paulo e por duas semanas tentou tocar a vida. Não conseguiu.
Aos 81 anos, sem parentes ou amigos fora do presídio, Lupércio voltou para a Casa de Detenção e pediu para se hospedar ali, “em qualquer cantinho”. Figura popular no Carandiru, foi instalado na área destinada à revista das visitas.
Ele se alimenta das “quentinhas” dos presos e, naturalmente, pode sair à rua quando quiser, embora raramente o faça. “Aqui tem futebol, é amplo”, diz.
Lupércio, mais conhecido por “Mala” (corruptela de malandro), ficou preso a maior parte do tempo nos últimos 51 anos. Na juventude, foi cabo do Exército e massagista de clubes de futebol — a memória já não o ajuda em outras lembranças.
Confessa que sempre gostou de “fumar um baseadinho” e garante que nunca foi bandido. Ele não admite, mas todos na Detenção confirmam a história de que em sua última prisão, há oito anos, ele comprou a maconha, ligou para a polícia e armou um flagrante para si próprio. Ver o sol nascer quadrado é seu único horizonte.
Condenado por tráfico de drogas, Lupércio Ferreira de Lima, o Mala, era um dos presos mais folclóricos da antiga Casa de Detenção, no Carandiru, Zona Norte de São Paulo.
Ele passou a metade da vida na prisão, onde acompanhou 11 Copas do Mundo, de 1958 a 1998.
Em Julho de 1998, após se decepcionar com a derrota da seleção brasileira de futebol para a França, ele ganhou liberdade.
Recusa em sair da Prisão
Com medo da violência nas ruas paulistanas e sem ter para onde ir, o Vovô da Detenção não quis ficar longe da prisão.
Ele alegou ter se assustado com a crueldade dos ladrôes, atacando idosos, e impressionado com o número de crianças viciadas em crack.
Mala dispensou a ajuda de velhos amigos que insistiam em lhe pagar hotel para pernoitar e dormia em um box na Casa de Detenção.
De Pelé a Romário
Lupércio Ferreira de Lima, o Mala, viu 11 copas do mundo na prisão e, quando teve a oportunidade de sair, preferiu não voltar às ruas pela violência urbana.
Ele continuou dormindo na Detenção até 2001, quando desapareceu. O presídio, palco do Massacre de 111 presos em 2 de outubro de 1992, foi desativado em setembro de 2002 e implodido em dezembro do mesmo ano.
A casa de detenção de São Paulo – A História do Carandiru
A cidade de São Paulo já teve um dos maiores presídios da história do país, o Carandiru. Os vários pavilhões que marcaram por décadas a paisagem da Zona Norte passaram por momentos altos e baixos: o presídio que chegou a ser modelo de gestão e recuperação de criminosos, foi palco de um dos maiores massacres da história do Brasil.
A Casa de Detenção de São Paulo, nome oficial do presídio, foi construída de acordo com as normas do Código Penal Republicano de 1890 e do chamado “Direito Positivo” da época.
A ideia era que as humilhações públicas e as torturas fossem deixadas de lado para que a disciplina fosse aplicada aos infratores para que pudessem voltar a conviver em sociedade após o cumprimento de suas penas.
Vale o destaque que essa nomenclatura, Casa de Detenção, foi uma exigência do interventor federal Adhemar Pereira de Barros que, em 5 de dezembro de 1938, pelo Decreto Estadual nº 9.789, extinguiu a Cadeia Pública e o Presídio Político da Capital.
A superlotação, o Complexo do Carandiru e o massacre
A penitenciária acabou atingindo a capacidade máxima com 20 anos de operação, em 1940, com 1.200 presos alocados. Em uma das tentativas de suportar a demanda, Jânio Quadros construiu um aparelho anexo, a Casa de Detenção, em 1956, aumentando a capacidade para 3250 presos.
A partir de então, os governos começaram a “tapar o sol com a peneira” e, em 1973, foi inaugurada a Penitenciária Feminina e, em 1983, começou a operar o Centro de Observação Criminológica. Todos esses edifícios juntos tornaram-se o Complexo Penitenciário do Carandiru.
Com essa mudança, o Carandiru perdeu sua vocação inicial e se tornou um exemplo do fracasso da administração pública. A situação e a condição do presídio eram horrorosas, o que favorecia a explosão de rebeliões. Várias delas ficaram famosas, mas nenhuma ficou tão famosa quanto a de 1992.
Os resquícios e a desativação
Após esses acontecimentos, o Massacre do Carandiru, como ficou conhecido o episódio, virou inspiração para diversas músicas e protestos contra as autoridades. A mais famosa dessas músicas é a canção “Diário De Um Detento”, do grupo Racionais MC’s. Em 2000 foi criado o grupo 509-E no interior do presídio, em “homenagem” à cela onde os integrantes do grupo se conheceram.
O grupo gravou dois álbuns dentro do Complexo e conseguiram um relativo sucesso obtendo uma vendagem alta de cópias para o mercado brasileiro. Além disso, Drauzio Varella escreveu o romance Carandiru, contando sua impressão de dentro da Casa de Detenção, onde era voluntário.
A partir de 2002, iniciou-se o processo de desativação do Carandiru, com a transferência de detentos para outras unidades. No dia 8 de dezembro desse ano, três pavilhões da Casa de Detenção foram implodidos às 11 horas, como previsto. No ano de 2014, o processo de julgamento do Massacre teve fim e 73 policiais militares foram condenados.
A detonação dos 250 quilos de explosivos, distribuídos por três mil pontos dos pavilhões 6, 8 e 9, foi feita pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e pelo ministro da Justiça, Paulo de Tarso. A queda dos prédios demorou sete segundos.
O governo do estado construiu um grande parque no local, o Parque da Juventude, além de instituições educacionais e de cultura. Um de seus pavilhões foi reaproveitado para ser instalado no edifício a Escola Técnica Estadual do Parque da Juventude, popularmente chamada de Etec Parque da Juventude.
Para quem quiser entender um pouco mais de como era a vida dentro do presídio, fica a recomendação de duas resenhas das duas obras do Dr. Drauzio: a estação Carandiru e o Carcereiros.
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