Mesmo com perfis configurados para menores de idade, testes revelam que a plataforma continua sugerindo conteúdos violentos, sexualizados e preconceituosos — levantando dúvidas sobre as verdadeiras prioridades da rede social.
O Instagram, uma das redes sociais mais populares do mundo, afirma ter mecanismos para proteger crianças e adolescentes em sua plataforma. Entre essas medidas, está o modelo das chamadas "Contas de Adolescentes", que, segundo a empresa, oferecem maior segurança e controle sobre o tipo de conteúdo que os jovens podem acessar.

No entanto, quando duas mães resolveram testar esse recurso, o que encontraram foi alarmante. Apesar das promessas de proteção, as contas recém-criadas — configuradas como sendo de adolescentes — começaram rapidamente a receber e sugerir conteúdos violentos, sexualizados, machistas e até mesmo preconceituosos.
A experiência revelou que o filtro anunciado pela empresa é, na prática, muito mais frágil do que o necessário. Não se trata apenas de uma falha pontual ou de algo que "escapou" da moderação. Trata-se de um padrão que levanta questionamentos profundos sobre como os algoritmos das redes sociais operam.
O mais grave é que isso acontece justamente com um público altamente vulnerável. Adolescentes estão em uma fase de formação emocional, cognitiva e social. Estão moldando suas ideias sobre o mundo, sobre si mesmos e sobre os outros. O que consomem online influencia diretamente nesse processo.
Quando esses jovens são expostos a conteúdos que perpetuam a violência, o machismo ou a hipersexualização, o impacto pode ser duradouro e profundamente nocivo. A saúde mental, a autoestima e a percepção de papéis sociais podem ser distorcidas de forma silenciosa.
A indignação das mães que fizeram o teste é totalmente compreensível. Elas não se depararam com um problema técnico simples ou um bug de sistema. O que viram foi uma engrenagem funcionando exatamente como ela foi projetada: priorizando engajamento, cliques e tempo de tela, acima da segurança dos usuários.
E é aqui que entra a frase contundente que vem sendo repetida por muitas pessoas críticas às plataformas digitais: "Isso não é acidente. É projeto." Essa afirmação denuncia a lógica por trás do funcionamento das redes sociais — uma lógica que se diz neutra, mas que é, na verdade, altamente orientada por interesses comerciais.
O algoritmo do Instagram, como o de outras redes, é treinado para manter os usuários o maior tempo possível na plataforma. Para isso, ele identifica padrões de interesse e comportamentos, e entrega conteúdo que gere reações — muitas vezes apelando para o choque, a polêmica ou a excitação.
Isso significa que, mesmo quando o usuário é um adolescente, o algoritmo não deixa de agir conforme essa lógica. Se determinado conteúdo gera mais engajamento entre esse público, ele será promovido — mesmo que seja tóxico, inadequado ou perigoso.
O discurso oficial da Meta é o de que a segurança dos adolescentes é uma prioridade. No entanto, a prática demonstra o oposto. O controle sobre o que essas contas veem parece mais estético do que funcional, servindo mais para fins de marketing do que para proteger de fato.
Não é a primeira vez que a Meta (empresa responsável pelo Instagram e Facebook) é criticada por esse tipo de comportamento. Diversos estudos, inclusive internos, já mostraram que o Instagram pode contribuir negativamente para a saúde mental de adolescentes, em especial meninas.
A denúncia feita pelas duas mães reforça essas evidências. Mostra que, mesmo após anos de críticas e promessas de mudança, a plataforma segue permitindo que conteúdos nocivos cheguem até os usuários mais jovens, sem uma barreira real de proteção.
Essa realidade exige não apenas uma mudança técnica nas plataformas, mas uma mudança ética e política. É preciso repensar os modelos de negócio que priorizam lucro a qualquer custo — inclusive o custo emocional e social das próximas gerações.
Além disso, é urgente discutir a regulação das big techs. Não podemos mais depender apenas da boa vontade das empresas. Precisamos de leis que responsabilizem essas plataformas quando elas falham em proteger os direitos de crianças e adolescentes.
Também é essencial fortalecer a educação digital nas escolas e nas famílias. Pais, mães e educadores precisam estar preparados para orientar os jovens sobre o uso saudável e crítico das redes sociais — inclusive entendendo como funcionam os algoritmos e os riscos embutidos neles.
A experiência das duas mães não é um caso isolado. Ela representa o que muitas famílias enfrentam diariamente ao tentar equilibrar o acesso à tecnologia com a segurança e o bem-estar de seus filhos.
O debate sobre redes sociais e infância/adolescência não pode mais ser adiado. Precisamos confrontar o poder dessas plataformas e exigir que elas assumam responsabilidade proporcional à sua influência.
Afinal, estamos falando de milhões de jovens sendo expostos a conteúdos que moldam suas identidades, seus desejos e seus relacionamentos. Se a tecnologia é uma ferramenta, ela precisa ser usada com ética e responsabilidade.
Enquanto isso não acontecer, denúncias como a dessas mães continuarão surgindo — e com razão. Porque, como bem disseram, quando o sistema falha de forma tão consistente, já não estamos mais diante de um erro: estamos diante de um projeto.
Algumas Informações: criancaeconsumo
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